Massangana – Lembranças da infância

Joaquim Nabuco

Além da festa de Nossa Senhora de Fátima, hoje celebramos o dia em que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, extinguindo assim a escravidão no Brasil. Fato tão importante de nossa história não teria sido possível sem o trabalho de um dos nossos grandes abolicionistas, Joaquim Nabuco. Aproveitamos a ocasião para publicar aqui o texto no qual ele descreve o encontro que marcou para sempre a sua vida e o inspirou a dedicar-se à causa abolicionista.

O texto apareceu pela primeira vez em Minha Formação, mas dada a importância do episódio para a sua conversão ao catolicismo, Nabuco também o incluiu na obra A Desejada Fé.

O quadro da vida muitas vezes não passa de um traço da própria infância, sendo o eu um simples feixe dos primeiros deslumbramentos da consciência. No que me diz respeito, não ultrapassei o limite de minhas quatro ou cinco lembranças mais antigas; foi com elas que atravessei a vida. Meus primeiros oito anos foram, num certo sentido, os de minha formação instintiva. Passei esse período de moldagem íntima num lugar de Pernambuco, no norte do Brasil, meu país natal. O engenho, como aí são chamadas as fazendas de açúcar, era um dos mais vastos e pitorescos da província, e nunca deixei de contemplar esse pano de fundo, que veda o plano posterior de minha vida.

A população do pequeno domínio, totalmente fechada a qualquer intromissão de fora, como os outros feudos da escravatura, compunha-se de escravos, alojados nas tocas do grande pombal negro, ao lado da casa principal, e de moradores, ou meeiros, ligados ao proprietário pelo benefício da casinha que habitavam e da pequena cultura permitida por ele em suas terras. No centro do pequeno cantão de escravos, erguia-se a residência do senhor, tendo defronte os edifícios da fábrica e atrás, sobre uma ondulação do terreno, a pequena capela sob a invocação de São Mateus… Pelo declive do pasto, árvores isoladas abrigavam, sob suas copas arredondadas, grupos destacados de gado. No vale se estendiam os canaviais, cortados pela alameda sinuosa de velhas árvores carregadas de musgos e cipós, que sombreavam de um lado e de outro o pequeno rio Ipojuca. Era por essa água, quase estagnada sobre seus bancos de areia, que se embarcava o açúcar para o Recife; ela alimentava, bem perto da casa, um grande viveiro, frequentado pelos jacarés – a que os negros davam caça – e famoso por seu peixe. Ali começavam os mangues, que se estendiam até a costa de Nazaré. Durante o dia, no calorão do meio-dia, fazia-se a sesta, respirando o aroma, que se espalhava por toda parte, das grandes tachas onde se cozia o mel. A hora do poente era deslumbrante, trechos inteiros da planície se transformavam em poeira de ouro; os fins de tarde eram frescos, agradáveis, balsâmicos; o silêncio das noites estreladas, majestoso e profundo. De todas essas impressões, nenhuma jamais morrerá em mim. Os filhos dos pescadores sentirão sempre debaixo dos pés o roçar das areias da praia e ouvirão o barulho das ondas. Eu, às vezes, acredito que estou pisando a espessa camada úmida de canas moídas e ouço o chiado longínquo dos grandes carros de boi.

Emerson queria que a educação da criança começasse anos antes de seu nascimento. Minha educação religiosa certamente seguiu essa regra. Eu sinto a ideia de Deus lá ao longe em mim mesmo, como o sinal amado e afetuoso deixado por várias gerações. Há espíritos que gostam de romper todas as suas cadeias, de preferência as que outros criaram para eles. Quanto a mim, seria incapaz de romper inteiramente a menor das cadeias com que uma vez me prenderam, o que faz com que eu tenha sofrido às vezes cativeiros opostos e, mais que as outras, uma cadeia que me foi deixada de herança. Foi na pequena capela de Massangana que fui preso à minha.

As impressões que guardo dessa idade mostram bem a profundidade onde se depõem nossos primeiros fundamentos. Em algum lugar, Ruskin escreveu uma variação do pensamento de Cristo sobre a infância: “A criança, muitas vezes, detém em seus dedos frágeis uma verdade que a idade madura, com toda a sua força, não saberia suster e que só a velhice teria o privilégio de reerguer.” Tive nas mãos, como brinquedo de criança, todo o simbolismo do sonho religioso. A cada instante, encontro-o entre as lembranças das miniaturas que devem datar, por sua frescura de provas antes da impressão, dessa primeira tiragem da alma. Pela perfeição dessas imagens infantis pode-se avaliar a emoção antiga. Assim eu vi a Criação de Michelangelo na Sistina e a de Rafael na Loggia sem poder dar a nenhuma delas, apesar de toda a minha reflexão, a relevância interior do primeiro paraíso que passou diante de meus olhos num pequeno teatro ambulante, espécie de antigo auto de mistério popular. Ouvi na Campanha romana, na entrada das Catacumbas, notas longínquas do Angelus, mas o muezim íntimo, o som que retine em meus ouvidos na hora da oração, é o da sineta que os escravos, no fim do trabalho, escutavam de cabeça baixa, murmurando o Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Eis aí o Millet indelével que se imprimiu em mim. Cruzei o oceano muitas vezes, mas, se quero recordar o mar, tenho sempre diante dos olhos, instantaneamente, a primeira onda que veio em minha direção, verde e transparente como uma tela de esmeralda, no dia em que, atravessando um grande bosque de coqueiros, atrás das cabanas dos jangadeiros, me vi de repente na beira da praia e tive, como um raio, a súbita revelação da terra líquida e móvel. Foi essa onda, refletida na chapa sensível de meu cérebro de criança, que se tornou para mim o eterno clichê do mar. Por ela, somente, eu poderia escrever Talassa, Talassa!

Meus modelos de ideias e de sentimentos datam quase todos dessa época. As grandes impressões da maturidade e da consciência não têm o dom de me fazer reviver senão o pequeno caderno onde os primeiros talos da alma aparecem tão frescos como se tivessem sido calcados ali nesta manhã. O encanto que existe nesses eidoli toscos e ingênuos da infância talvez provenha do fato de que só eles conservam os rastros de nossa primeira sensibilidade apagada. Dir-se-ia que eles são cordas afrouxadas, mas ainda sonoras, do instrumento que um dia fomos nas mãos de Deus.

Tal como com a religião e a natureza, assim também acontece com os grandes feitos morais ao meu redor. Eu me engajei na campanha pela abolição da escravatura e, durante seis anos, tentei extrair da história, da ciência, da religião, do direito, da vida, um filtro que enfeitiçasse a nação e a dinastia em favor dos escravos; eu os vi em todas as situações imagináveis; li cem vezes A Cabana do Pai Tomás no original da dor vivida e sangrenta. No entanto, para mim, a escravidão está toda contida num quadro inesquecível da infância, numa primeira impressão do escravo que decidiu, tenho certeza, a missão posterior de minha vida. Eu estava, uma tarde, na escadaria da casa, quando vi precipitar-se para mim um negro jovem e desconhecido, com mais ou menos 18 anos, que caiu de joelhos à minha frente, abraçando meus pés e me suplicando, pelo amor de Deus, que fizesse minha madrinha comprá-lo para me servir. Ele vinha da vizinhança, procurando mudar de dono, pois o seu o ameaçava, e ele fugiu correndo grande risco. Foi essa seta inesperada que causou minha primeira descoberta da outra face da instituição com a qual eu vivera familiarmente até então, sem suspeitar da dor que ela encobria.

Nada em mim demonstra melhor que a própria escravidão a força de nossas primeiras vibrações interiores. Realmente, ela é de tal sorte que a vontade e a reflexão da idade madura não saberiam livrar-se dela e não têm um contentamento verdadeiro a não ser submetendo-se a ela. É claro que combati a escravidão com todas as minhas forças e a rejeitei de consciência plena como sendo a deformação utilitarista da criatura, e, no dia em que a vi acabar, eu também teria podido pedir minha licença, minha alforria, dizer meu nunc dimittis, tendo ouvido a mais consoladora mensagem que, em meus dias, Deus pôde enviar ao meu país… No entanto, hoje que ela não existe mais, às vezes me surpreendo sentindo uma estranha saudade, que teria espantado bastante um Garrison ou um John Brown, a saudade da escravidão.

É que o papel do senhor era tão inscientemente egoísta quanto era inscientemente generosa a parte do escravo. A escravatura ficou sendo, por muito tempo, a característica nacional do Brasil. Quanto a mim, eu a absorvi no leite negro que me alimentou: ela envolveu toda a minha infância como um carinho mudo; eu a aspirei no devotamento dos antigos escravos, que me julgavam o herdeiro presuntivo do pequeno domínio do qual faziam parte. Durante esses oito anos, passou-se entre nós uma contínua troca de simpatia, da qual me veio a terna e reconhecida admiração que senti, desde esse tempo, por seu papel. Este me pareceu, em contraste com o instinto mercenário de nossa época, sobrenatural graças à naturalidade humana, e, no dia em que a escravatura foi abolida, senti que um dos mais completos desprendimentos de que o coração humano se mostrou capaz não reencontrará, desde esse tempo, as condições que o tornaram possível.

Tal como está associada às minhas recordações de infância, essa escravidão tinha sido um jugo suave, fazendo o orgulho exterior do senhor e também o orgulho íntimo do escravo, algo que lembra o apego do animal, que jamais se corrompe, porque o senso de desigualdade não está ali para alterá-lo. Também receio que essa espécie particular de escravidão só tenha existido entre nós nas fazendas muito antigas, administradas por várias gerações dentro do mesmo espírito de humanidade, e em que uma longa herança de relacionamentos estabelecidos entre o senhor e os escravos fez de todos juntos uma espécie de tribo patriarcal, isolada do mundo. Uma tal aproximação entre situações tão desiguais diante da lei seria impossível nas grandes e ricas fazendas do Sul, onde o escravo, desconhecido pelo proprietário, não passava de um instrumento de lucro. Os engenhos do Norte eram, na maior parte, explorações industriais muito pobres; eles existiam apenas para manter a condição senhorial do dono, cuja categoria e importância eram consideradas segundo o número de escravos. Ali também havia uma aristocracia de maneiras que o tempo apagou, um pudor, uma reserva em questões de lucro, própria de classes que não traficam mais. Nessa escravatura eu não consigo pensar sem um desgosto involuntário. Ela difundiu em nossos vastos ermos uma grande suavidade; seu contato é a primeira impressão recebida pela natureza virgem da região, e é a que esta conservou; ela a povoou – como uma religião natural e vívida – de seus mitos, suas lendas, seus encantamentos; ela lhe insuflou sua alma infantil, sua tristeza sem mágoa, suas lágrimas sem amargura, seu silêncio sem concentração, sua alegria sem motivo, sua felicidade sem amanhã. É seu o suspiro inexplicável exalado ao luar pelas noites do Norte: a vontade de, simultaneamente, rir e chorar, gemer e cantar, viver e morrer, de que nossa melodia popular é a expressão. Com a alma do escravo, tal como a conheceram as crianças de minha geração, se faria o mais doce e o mais livre dos laços humanos, se fosse possível imaginar uma alma de senhor com afinidades iguais.

Se existe uma verdade moral visível na natureza, é que o Criador não quis a escravidão em sua obra. A liberdade se confunde com o próprio sopro que a tirou do nada; ela é um princípio que se deve estender, na criação, até onde vai o éter, por tudo aonde a luz vai. Desse princípio, desse sentimento, a religião cristã é de fato a afirmação suprema, pois a ideia essencial é que Deus, após ter criado a liberdade, preferiu ele mesmo morrer a suprimi-la de seu plano, ou traçar outro sem ela. Foi a queda que trouxe a escravidão. Não obstante, a domesticidade do homem será a fonte renovada de toda a bondade no mundo, e a escravidão se tornará um rio de ternura, o mais largo que atravessou a história, tão grande que todos os outros, inclusive o cristianismo, parecem afluentes… O cristianismo teria, com certeza, tomado direção totalmente diferente, se algumas de suas fontes não derivassem da escravidão, pois ela derramou uma torrente de abnegação e de amor no seio do cristianismo nascente. Ele foi uma religião de escravos e de alforriados muito antes de se tornar a religião dos imperadores e, na mistura de suas origens longínquas, foi-lhe emprestado da alma congênere do escravo muito de sua essência, pois ambos deviam ser a ascensão dos humildes e dos oprimidos. Dir-se-ia que, para a religião da redenção humana, eram necessários escravos como primeiros clientes. Foi também no serviço desinteressado, na obediência absoluta, no reconhecimento devotado dos escravos que as primeiras igrejas encontraram o tipo de relacionamento do fiel com o Cristo, assim como a humildade do escravo servirá posteriormente de modelo à mais alta dignidade da Igreja – servus servorum Dei. A felicidade de ser escravo foi a primeira contribuição cristã à alma antiga. Tal felicidade só se torna possível no dia em que uma religião nova se dispõe a descontar as grandezas ambicionadas por todos numa moeda imaginária, que não poderá circular senão em outra vida. O futuro sentimento de igualdade é o verdadeiro muro de sustentação da cidade de Deus; é ele que, dentro das comunidades cristãs, ergue a condição servil ao nível dos primeiros lugares. É do contato ínfimo com a escravidão que resultou a ambição suprema do santo: ser escravo de Deus. Essa aspiração da perda total da liberdade significa que o amor do escravo foi julgado como sendo o amor por excelência. O escravo é um símbolo como o cordeiro. Dessa maneira, o cristianismo fez com que nascesse, da mais tosca das plantas, a mais sublime flor da humanidade que jamais perfumou a terra. Foi no círculo dos escravos que São Paulo semeou os primeiros grãos da caridade. Noutro lugar qualquer eles teriam caído em solo estéril.

Já mencionei aqui minha madrinha. De todas as lembranças de minha infância, a que ofusca todas as outras e a mais cara de todas é o amor que eu sentia por aquela que me criou como um filho até meus oito anos. Meus pais, tendo partido para o Rio de Janeiro pouco depois de meu nascimento, deixaram-me em sua companhia, e só depois de sua morte é que fui morar com eles. Durante o primeiro ano de minha volta à família, a imagem de minha madrinha, sempre presente, fez com que eu me sentisse um órfão em casa de um tutor benevolente, onde todos se esforçavam por me trazer de volta a eles. Com o desenvolvimento da razão e do coração, cheguei a ter por meus pais o verdadeiro sentimento filial, naturalmente por meu pai antes que por minha mãe, rival a meus olhos daquela que eu não conseguia esquecer, mas receio que todos os argumentos do mundo não tenham jamais podido apagar inteiramente a visão de onde fui deixado por tanto tempo.

A silhueta de minha madrinha se projetou em minha memória de tal maneira que, se eu tivesse um mínimo talento de pintor, talvez pudesse desenhá-la. Ela era corpulenta, inválida, caminhava com muito esforço e estava constantemente sentada numa cadeira larga, de couro, que era transportada para ela de um cômodo a outro da casa. Grande parte do tempo ela ficava diante da janela que dominava o lugar formado pelo engenho, as cavalariças, o curral, a pequena escola, construída para mim e onde morava o professor que ela mandara vir da cidade. Ela estava sempre com sua roupa de viúva. À sua frente ficava uma mesa grande onde ela jogava cartas, costurava para uma porção de empregados, calculava o pagamento de seus servidores, recebia as visitas que vinham toda semana, atraídas pelos quitutes de sua mesa, famosos desde o tempo de seu marido, e pela sinceridade de seu acolhimento, sempre cercada, adorada por todo mundo, fingindo uma cara severa que não enganava ninguém, quando precisava repreender alguma jovem mucama que deixava muitas vezes a renda para tagarelar no gineceu, ou algum protegido que recorria sem cessar à sua bondade.

A noite da morte de minha madrinha é a cortina negra que separa o cenário de minha infância do resto de minha vida. Eu não pressentia nada, não desconfiava de nada. Estava dormindo em meu quarto, quando ladainhas entrecortadas de gritos e de soluços me acordaram e me transmitiram a emoção de toda a casa. No corredor, pessoas, escravos rezavam, choravam, abraçavam-se no maior tumulto; era a mais verdadeira consternação que já se viu; uma cena de naufrágio. Aquele pequeno mundo, que se formara durante duas ou três gerações, não existia mais depois dela; seu último suspiro o havia rompido em pedaços. A mudança de senhor era o que acontecia de mais terrível na escravidão, principalmente quando devia passar do poder nominal de uma velha santa, que já se tornara enfermeira de seus escravos, para as mãos de uma família até então estranha. E era assim não só para os escravos, mas também para os meeiros, os empregados, os pobres, todos aqueles que ela albergava e aos quais ela fazia diariamente a distribuição de víveres, de esmolas, de remédios, como o chefe reconhecido da família que formavam juntos.

Eu também tinha de sair de Massangana, deixada por minha madrinha para um outro herdeiro, seu sobrinho e vizinho. Para mim, ela legava uma de suas propriedades que estava a fogo morto, quer dizer, sem escravos para trabalhá-la. Ainda vejo chegar, quase no dia seguinte ao de sua morte, carros de boi trazendo para sua Massangana a família e os bens do novo proprietário. Era a minha destituição. Eu tinha oito anos. Pouco tempo depois, meu pai me mandou buscar, por um velho amigo enviado do Rio. Distribuí pelas pessoas da casa o que era de meu uso. O que eu mais lamentava era me separar daqueles que haviam cuidado de mim na infância, que me haviam servido com todo o devotamento e todo o reconhecimento que eles tinham por minha madrinha e, sobretudo, entre esses, os escravos que literalmente sonhavam pertencer a mim depois dela e que, pela primeira vez, me vendo partir espoliado de sua propriedade – assim pensavam eles – sentiam toda a amargura de sua condição e a sorviam até a última gota. Para mim, os dois grandes sentimentos da criatura, que constituem a substância da religião, a dependência e o reconhecimento, eu os tirei dessa primeira fonte onde bebi, porque a alma do escravo, tal como a conheci, não era senão um vasto reservatório de amor, tremendo de hesitação e refletindo os menores benefícios.

Um mês e meio depois, deixei meu Paraíso perdido, mas pertencendo a ele para sempre. Foi lá que eu cavei com minhas pequenas mãos ignorantes esse poço da infância, insondável em sua pequenez, mas que refrescou o deserto da vida e nela fez para sempre, em certas horas, um oásis sedutor. As partes adquiridas pelo meu ser, o que eu devo a este ou àquele, se dispersaram em direções diferentes, mas o que recebi diretamente de Deus, o verdadeiro eu saído de suas mãos, este ficou ligado ao pedaço de terra onde repousa aquela que me iniciou na vida. Foi graças a ela que o mundo me recebeu com um sorriso de tal doçura que todas as lágrimas imagináveis não farão com que eu o esqueça. Massangana ficou sendo a sede de meu oráculo íntimo; para me impelir, para me deter e, se necessário, me resgatar, a voz, o frêmito viria sempre de lá. Mors omnia solvit. Tudo, exceto o amor, que ela prende definitivamente.

Doze anos depois, revisitei a capela de São Mateus, onde minha madrinha, Dona Anna Rosa Falcão de Carvalho, jaz perto do altar, e pela pequena sacristia abandonada penetrei no cercado onde estavam enterrados os escravos. Cruzes que talvez não existam mais, sobre montes de pedras ocultas pelas urtigas, eram tudo o que restava da opulenta fabrique, como era chamada a área dos escravos. Embaixo, na planície, brilhavam como antes as manchas verdes dos grandes canaviais, mas a usina agora fumegava e silvava soltando um vapor penetrante, anunciando vida nova. O trabalho livre tomara em grande parte o lugar do trabalho escravo. O engenho tinha o aspecto de colônia. O sacrifício dos pobres negros, que tinham incorporado sua vida ao futuro desse domínio, talvez só existisse em minha lembrança. Sob meus pés estava tudo o que restava deles, em frente do columbarium, onde dormiam na pequena capela as pessoas que eles tinham amado e servido livremente. Lá eu invoquei todas as minhas lembranças, chamei alguns por seus nomes, aspirei, no ar carregado de aromas silvestres que a vegetação sobre suas covas conserva, o sopro que dilatava seus corações e que inspirava sua alegria perpétua. Foi assim que o problema moral da escravidão se representou a meus olhos pela primeira vez em sua nitidez perfeita e com sua solução obrigatória. Esses escravos haviam não só estimado sua senhora, mas a abençoaram até o fim. Do lado de quem dava é que estava o reconhecimento. Todos eles morreram acreditando-se devedores, nenhum se considerava credor. Sua humildade não deixou que germinasse neles a ideia de que o senhor pudesse ter a menor dívida para com aqueles que lhe pertenciam. Deus mantivera o coração do escravo, assim como mantém o coração do animal fiel, longe de todo contato com aquilo que poderia tê-lo revoltado contra seu amor e seu devotamento. Então, nesse adro duas vezes sagrado, tomei a resolução de dedicar minha vida, se me fosse dado, ao serviço da raça generosa entre todas, que a desigualdade de sua condição enternecia em vez de amargurar, e que, por sua doçura até o fim, empresta um reflexo de bondade à própria opressão da qual ela era vítima.

Oh! Ela não pendurou suas ferramentas nas árvores do país estrangeiro para deixar de repetir, no cativeiro, os cantos do tempo em que era livre. Sobre os rios de Babilônia… ela cantou, e de suas palavras, de suas canções, espalhou-se em volta de nós um sentimento de gratidão pelos mínimos benefícios e de perdão pelos maiores danos. Esse perdão espontâneo, total, da dívida do senhor para com os escravos reconhecidos é a única prescrição possível da culpa do país que progrediu por meio da escravidão e sua única oportunidade de escapar da pior pena de talião da história. A nobreza mais autêntica aos olhos de Deus é a das seguidas gerações de mártires do cativeiro. Os Santos negros! Que eles possam sempre interceder por nossa terra, que eles não deixaram de abençoar com seu amor, mesmo inundando-o com suas lágrimas…

(Petrópolis, 1893)

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